29 - The end.
Fui.
Passei.
Voltei.
Então como finalizar uma experiência assim? Como agradecer? Contabilizar? Destrinchar? Assimilar? Continuar seguindo...?
Como dar respostas aventureiras às curiosas perguntas sobre tudo que passou?
Complicado. Essa é a nova aventura que, agora, bate a porta.
Pensei, pensei e pensei em como escrever algo digno para finalizar esse blog, essa experiência e retomar, ou iniciar, uma nova etapa da vida. E então lembrei algo que escrevi durante a viagem em um dos muitos momentos perdidos em pensamentos.
E ele é fiel e desenha tudo quanto eu possa desejar agora....
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10/01/2008
Como é gostoso escrever por escrever. Deitar os dedos sem a menor pretensão e de repente se espantar com a cria.
Aliás, a cria e o criador. Quem tem a vida própria?! Quem dita as regras?
2 meses de estrada ainda por vir. Pouco mais de um ano ficando para trás. Um passado que se tornou tão rico, vasto e único que beira o crime não ser capaz de mostrar tudo como, de fato, o foi. Aliás, já tenho uma resposta a pergunta que sempre me pareceu a mais difícil de todas. Àqueles que disserem: do que você mais sente falta? Eu direi: da verdade.
Lembrar como foi, sentir como marcou, sorrir pela alegria verdadeira e entender perrengues e sensações sem nenhum tipo de maquiagem. Mas será possível? A mente tem caminhos implacáveis e entorpecentes no curso da vida. Nem sei...
Um ano. Uma vida. E algumas conclusões confusas no meio de tantas pernadas...
Sinto falta dos Estados Unidos. E sei bem o porquê. Era viagem disfarçada de lar. Com laços sendo criados, casa "própria" e rotina. E sim, a ironia aparece. Rotina?! Ora pois. Descobri que a minha saudade é símbolo do valor que dei a rotina dentro do acaso. Da (fantasia?) possibilidade de chutar o balde sem perder totalmente o gosto nosso de chão conhecido. E acho que assim sou. Caseiro, pacato e contemplador. Um pacote que, convenhamos, não encaixa muito em um roteiro de trens, onibus, aviões, pinga pinga e novo sobre o novo. Não à toa tive minha parte no sentimento de peixe fora d'água em alguns momentos da viagem.
De certa forma, sou um solitário. Não na dança da solidão, mas nas vinhetas de espaço próprio que me são mais constantes que aos outros. Não entendo por completo o porquê. E, na conversa interior onde disfarces e mentiras não existem, sei que é algo maior do que um simples costume. Eu simplesmente sou, trago comigo, quero. Sair sozinho, andar sozinho, comer sozinho. Isso, por certo, tende a afastar - aos poucos ou não - outros de mim. Imã às avessas. Justo, de certa forma. Como medir a diferença entre o "estou incomodando" e o "é o jeito dele"?
Sou um saudoso nato e isso me assusta. Viver no passado é uma bobagem só não tão estúpida, quanto arriscada. Muito fácil, em um jeito como o meu. Sentir falta não é ruim. Mas em excesso pode tirar o brilho de um presente precioso e igualmente belo na ponta do nariz. Penso na praia, no beijo, nos passeios, nas risadas e me vejo desejando, divagando.
Aliás, meu desejo de luxo é saudoso. Retornar a certos lugares e rever pessoas que deixaram suas marcas em mim, cientes ou não. Andar pelas ruas frias e melancólicas de Norwich, dar um “alô” aos então companheiros de trabalho, dirigir pela highway 59 em direção à praia de Gulf Shores, almoçar no live bait, surfar em Jeffreys Bay, jogar sinuca em Krakow ao som de pagode e amigos. Cada vez mais me convenço que, em detrimento de grandes atos realizações que – claro – possuem o seu valor, detalhes são o verdadeiro alicerce da vida, onde o individual é constantemente tocado e verdadeiramente moldado. O legado nosso se forma no dia-dia.
Difícil. É curioso não conseguir verbalizar o turbilhão de lembranças que passam pela cabeça. Todas parecem ter vontades próprias. Aparecem e desaparecem na força do pensamento. Certas coisas são feitas para sentir, somente.
Agora, perto do fim, olho para trás. Não com o olhar inquisitor, e sim com o contemplar de perdas e ganhos sem balança alguma. E, do “velho e o moco”, "se eu fosse o primeiro a voltar para mudar o que eu fiz? Quem então agora eu seria?". Minimizaria erros? Construindo todo o caminho em um modo de segurança onde a emoção dá lugar a previsão? Não. A graça da vida é mesmo viver e se iludir em longos caminhos de planos que menosprezam a fragilidade de um simples segundo a passar. Sim, erraria tudo da mesma maneira.
E, da volta, bem. O vento que soprou ontem, há de surgir em algum amanhã. Nem só de aventuras nomadianas é feita a vida de hoje. Há de se aceitar que, a cada um, uma realidade é destinada. E nessa ventura, já de elementos previsíveis e uma emoção aquém dos grandes contos, muitos outros desafios terão o seu lugar. Cotidiano que, vez ou outra,abre caminho ao extraordinário verniano. Da minha, vou segui-la da melhor maneira possível carregando a centelha que um dia me trouxe o mundo de presente. Um sorriso no rosto sempre alerta para a brisa do extraordinário que, de novo, há de bater.
Dar a volta ao mundo é também dar a volta em si mesmo. Em pensamentos, questões e conclusões. Vendo, conhecendo e reconhecendo novidades. Sempre, enquanto ser humano, tentando absorver ao máximo. E o que muda? Uns diriam tudo, outros nada. O jorro de conceitos tanto quebra, quanto enaltece o verdadeiro “ser”. As resposta moram dentro, pelo menos para mim. O berço, nesse aspecto, pode mesmo ser a maior das aventuras para alguém. Mas e então? E o diferente? Poderia ter lido ou escutado sobre tudo, afinal. Livros, revistas, causos. Poderia nunca ter saído. Continuaria a ser exatamente quem sou.
Mas de nada adiantaria. Não teria rodado mllhas e milhas, não teria ido e voltado. Não haveria saudades, preciosismos e questionamento. Nào haveria busca e, provavelmente, eu não teria descoberto que a maior das aventuras pode estar escondida num simples momento onde sabedoria e felicidade passam a soprar de dentro para fora, e não de fora para dentro.
Por fim, um poema que, desde o início de tudo, fez a diferença:
“Two roads converged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth; 5
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same, 10
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back. 15
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.”
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A todos que apoiaram de alguma maneira, pequenina ou gigantesca: MUITO OBRIGADO!
Por mais estranho que possa soar, encerro aqui o blog da viagem. Com o desejo de que, em um dia qualquer, ele possa ser reaberto.
Obrigado a cada um dos 4000 e tantos visitantes que, por acaso, erro ou vontade, compartilharam um pouco de tudo por aqui.
A vida urge. E é chegada a hora de voltar à Terra do Nunca.
Saudações, sempre, atromeladas.
O show tem que continuar.
Ivan Maciel Ribeiro.
