Tuesday, September 18, 2007

15 - Poland: Auschwitz (English now below!)

Os dedos travaram. A mente forçou, o cenho franziu e o coração acelerou.

Como eu vou conseguir escrever sobre Auschwitz? Acho que da mesma maneira que lá eu consegui entrar. Com respeito e tristeza dentro do peito.

Tenho a sensação de que cada palavra dita é uma tristeza revivida. Cada descrição um desrespeito, cada observação uma atrocidade, cada detalhe simplesmente um mal.

Dor? Sofrimento? Maldade? Solidão? Palavras, substantivos ou adjetivos. São só palavras. A melhor descrição do que esses campos de grama verde que já não vivem mais são é o olhar.

Eu nunca perdi alguém. Nunca tive o senso de ver uma parte de mim ir embora. As dores foram do corpo, da mente. No máximo um sonho que ficou para trás. Mas a dor da alma? Aquela que você não sabe por onde vem? Dói sem doer. Por que dor é dor, mas aquilo em você dói simplesmente não consegue doer. Essa com certeza deve ser uma das piores. É o sentir a desumanidade.

Auschwitz foi, e é, isso para mim.

Tanta crueldade.

A visita foi guiada. Por uma gentil senhora polonesa que carregava na voz um tom de serenidade como que numa tentativa de dar um "teor histórico e pretérito" aquilo que nunca vai deixar de ser vivo aos olhos de quem lembra ou simplesmente imagina.

E assim se delineou: primeiro Auschwitz, depois Berkenau.

Tudo começa com um vídeo. Narrado em inglês ao tom de Cid Moreira calmamente enumerando corpos, atrocidades, perdas e estatísticas. Contabilizando o massacre. Mostrando sobreviventes (sobreviveram mesmo aqueles que viveram?) e seus rostos descrentes, maltratados e perdidos. Um olhar de quem não sabe mais o que é ser humano.

E então começa a caminhada. Que aqueles de coração sensível fiquem para trás. Por que tanto a dor, quanto o sofrimento vão ser inevitáveis.

DSCN0793 No início um portão com os dizeres: "Work will set you free". A maneira (apenas uma das muitas) de os nazistas iludirem os prisioneiros achando que, algum dia, a morte deixaria de encontrá-los. Sim, apenas uma das muitas...

 

DSCN0809 Então prédios, cercas, guaritas e muros de fuzilamento. Prédios? PRÉDIOS?!? Cemitérios cobertos e emparedados! Isso sim! Museus de atrocidades. Você entra e vê pertences de prisioneiros mortos no campo. E descobre que eles eram tirados (com retorno garantido!) exatamente antes de um banho prometido em um certo compartimento fechado.

 

 

P9011058 Descobre também que após o banho, a retirada dos corpos (por outros prisioneiros, possíveis parentes, amigos, ou simplesmente seres humanos) e posterior cremação, os pertences eram dados a soldados e alemães como um prêmio.

 

P9011063 Não parece tão assustador? ENTÃO VEJA mais de 1000 pares NA SUA FRENTE em exposição! (Ah! A ação dos gases? De 0 a 15 minutos para exterminar todos no cômodo. Quantos? Em Berkenau cerca de 1500 almas. Meu Deus, o que os olhos dos que viviam até o fim eram obrigados a ver?)

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Se sapatos, pentes, pinicos e malas não forem suficientes, Auschwitz mostra fios. Nem de ouro, tampouco de seda. Sim, cabelos. Arrancados friamente de cada morto, cada corpo, para dar às cordas alemãs a resistência necessária.

Se purificação racial não for justificativa suficiente, que venham as cordas!

As fotos. Exatamente, simplesmente, as fotos. De dezenas ou centenas de pessoas, todas mortas ali. Exatamente onde você está. Intelectuais, médicos, músicos, judeus, ciganos, soldados, pessoas. Todos um número, nada humano. Inicialmente com honrarias de gala. Fotos e catálogo! Depois? A produção deve aumentar! Uma tatuagem no braço e uma câmara. Sinceramente? Ter visto uma criança com lágrimas nos olhos posando para um catálogo de morte? É uma imagem que eu queria poder deletar...(nessa hora, eu tive de ir embora)

P9011064 E os prédios continuam. Com celas, banheiros (banheiros?????) e escritórios. A cela solitária em pé é um charme a parte. Depois de cerca de 12 horas de trabalho forçado, bastava passar o restante do tempo em um local onde não se consegue sequer sentar.

 

Onde é que morrer se torna melhor que viver? As camas? Empilhadeiras, certo. E uma frase da guia: "Muitos sobreviventes, anos após, ainda escondiam um pedaço de pão embaixo do travesseiro com medo de não ter o que comer na manhã seguinte"

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E, é claro, o muro de fuzilamento sumário, os instrumentos de tortura ao ar livre... (...)

 

 

 

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E, no fim, ela. A única câmara de gás não queimada pelos Nazistas com a derrota na segunda guerra. O que ela é? Não entrem. Não imaginem. Não queiram.

Ela é morte, simplesmente isso. Quatro paredes, um buraco e duas portas. Uma de entrada e outra de "saída". Para onde?

Crematorium....

                                       Dói...

 Mas chega Berkenau. E aí sim, você vê as estatísticas na sua frente.

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"History exists to teach us about our mistakes and improvements.

This is one lesson, tough, that should've never had to be learned at all.

I am truly sorry "

 

 

                                  Uma breve história:

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"E é chegado mais um. Quantos? Alguns milhares. De praxe. Sujeira, fedor, miséria. Desçam, larguem, despeçam, em fila!

- Homens!

- Mulheres e crianças!

- Para o banho, já!

Todos se encaminham. Banho merecido após uma viagem tão longa para esse campo de trabalho coletivo.

(Doutores analisam as filas).

- Você! Para a direita.

-Você para esquerda.

Esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda (...), esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda, esquerda!!!!

(Mulheres, crianças acima de quatorze anos sempre para a esquerda. Idosos, deficientes, homens de meia idade também.)

- Larguem seus pertences! Depois do banho eles estarão disponíveis."

Pilhas de bagagens, sapatos, pertences e malas ao lado dos trens que já se preparam para sair da estação. O recolhimento prestes a começar. A marcha para os banheiros coletivos começara. Banheiros dotados de encanamentos por onde a água nunca passou e de chuveiros donde nenhuma gota jamais caiu. (Work will see you free!!!)

Portas fechadas.

Silêncio.

Lareiras acesas.

Fumaça.

Nem se passou um dia.

Adeus."

                           P9011086

 

Aqui muitos prédios foram queimados.

Só existem projetos do que foram as máquinas de extermínio nazista.

Apenas os prédios "residenciais" (?!??!) e logísticos estão de pé.

 

 

 

DSCN0823 As residências que congelavam no inverno e queimavam no verão? Sim. Enlamaçadas de sujeira? Sim. As latrinas coletivas sem saneamento? Sim! Nojo?? Pois trabalhar no nojo vira dádiva quando o fedor e a nojeira afastam o monstro Gestapo-dor.

Berkenau é Auschwitz com uma capacidade talvez 100 vezes maior. Só isso.

DSCN0839 No meio de tudo, um grupo de Israelenses sentados em frente as ruínas de uma das câmaras de gás. Muitos envoltos na bandeira de Israel. Duas meninas dedilham violões. Quase todos cantam. Velas acesas. A estrela de Davi.

 

(Olhos marejados)

Chega.

Números e dados?

- Não menos de 1 milhão e 100 mil mortos. Estimativa de 1 milhão e 500 mil. Maioria Judeus, seguidos de poloneses. Entre mortos estavam também: Húngaros, tchecos, soviéticos, ciganos e alemães. Além de diversos prisioneiros de guerra.

- Dentes de ouro eram arrancados, também das vitimas, para serem enviados aos bancos alemães.

- Muitas passagens de trem para Auschwitz eram pagas. (Work will see you free. A morte e seus disfarces)

- 80% dos prisioneiros que chegavam a Berkenau não sobreviviam ao primeiro dia. (O polegar de Cezar na era moderna pertencia aos doutores do exército alemão)

- Crianças eram poupadas para o uso em experiências médicas e laboratoriais. Experiências como: injeção de vírus e bactérias para análise da evolução de doenças e possíveis efeitos de drogas ou transplante de parte do corpo humano.

- Os campos foram conservados a pedido dos sobreviventes da guerra como uma tentativa de sempre lembrar a humanindade de (...)

- Berkenau ainda conserva cinzas de prisioneiros cremados.

Eu sinto muito.

Mesmo.

Ivan.

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My fingers are stuck. I push my mind. Wrinkles on the forehead. Heart beats up. How can I write about Auschwitz?

I guess the same way I was able to just go inside. Respectfully and with sadness inside. It gets to me that each word is a sin. A sadness source. Every description becomes a disrespect, each observing a atrocity. A detail that will just point out evil.

Pain? Suffering? Sorrow? Solitude? Evil? Words. Just words. Not even close. The best description for those not-to-live-again green grass fields are the eyes.

I have never lost anyone close. Never had the sense of seeing a part of me wave good-bye. Only body pain. In the worse case, a dream that was left behind. But soul's wound? The one with no identified source? When you can't fight what you don't understand? Never. A kind of pain that aches without aching. Not the common one. Hardly explainable. Makes your body resentful. Your mind sick. Your heart cold. It's feeling inhumanity.

Auschwitz meant, and means, that to me.

So much cruelty.

Our tour was guided. A quite nice Polish lady. With a soft voice and a tender look that seemed to try to give a "historical and past" tenor to what will never stop being alive to the eyes of those who see. And feel.

And so it was: first Auschwitz, then Berkenau.

It all starts with a video. With a low, cold voice a man goes enumerating bodies, atrocities, losses and statistics. Turning the massacre into numbers. Showing the red army arrival and the survivors (did those who survive did really live?) with its disbeliefs on the faces. Mistreated and lost. Far from this world. A stare without feeling. Seeming to have forgotten what it is like to be human.

And then we walk. For those with fainted hearts: don't come. Both pain, and suffering will be inevitable.

The gates announce "Work will set you free". A lie to start with. One of the main nazis'  tricks to delude the prisoners to think that, one day, they would be able to escape death.  Yes, only one of many lies...

And then the camp. With its buildings. BUILDINGS???? Cemeteries with roofs and walls, that's what they are. Museums of cruelty. You go inside and it's there: dead prisoners' belongings. And you soon find out that they were taken a few moments before a certain shower in a quite unusual bathroom. And then you discover that the body removal - and later cremation - after the "shower" was performed by other prisoners. "Luckily" alive. Maybe parents, friends or just human beings. Belongings were gifted to soldiers and german people.

Not so terrifying? Maybe not. Try seeing A THOUSAND of SHOES in front of you (Oh the gases! That was something. Took the most 15 minutes to kill the whole room. How many? In Berkenau about 1500 souls. Jesus, I wonder what the last ones to die had to see...)

If shoes, combs, PINICOS or suitcases are not enough, Auschwitz shows strings. Neither silk, nor gold. Hair strings. Coldly taken from each dead body to give the necessary resistance to german's ropes.
If race purifying is not enough, bring them ropes!

And the pictures of course! Hundreds of them. All people that died there. Exactly where you stand. Intellectuals, doctors, Jewish, gypsies, soldiers, all just people. Nothing human for they were simply numbers. At first with cataloged arrival. When the massive murder began, just a number tattoo.


That's all...

And the buildings go on. With prisons, bathrooms (bathrooms??) and offices. Standing cell is such a charm. After 12 hours of hard labor, there is nothing like staying on a place that you can hardly stand for the rest of the day. No wonder prisoners died there...

When does dying become a better deal? The beds? Human Stacking devices, all right. And one phrase from the guide: "May survivors kept, even after many years, a single piece of bread under the pillows fearing that, the morning after, they would have nothing to eat at all"

And the shooting wall, open-air torture mechanisms...

In the end? Her. The last standing. Only one not burned by the Nazi.
The chamber. What is it? You don't want to know. You don't want to go in. It is death. Simply that. Four walls, one ceiling hole and two doors. Way in, way out. Where to? Crematorium....

It hurts. But then there is Berkenau with its magnificent size. Numbers start falling down on your face.

"History exists to teach us about our mistakes and improvements. This is one lesson, tough, that should've never had to be learned at all.

I am truly sorry "

A short story:

"Another train's arrived. How many now? Some thousands. Ordinary. Dirty, stinky, miserable. Get off you all. Leave it. Say good-bye. Line up!

- Men!

- Women and children.

- To the shower, now!

Everybody follows. Well-earned bath after such a long journey. What is this labor camp about anyway?

(Doctors analyze the lines)

- You! To the right.

- You, to the left!

Left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, (...), left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left, left!!!!

(Women and above 14-year-old children go always to the left. Elderly, handicapped, middle-aged men as well)

- Drop your belongings! After the shower they will be available.

Piles of luggage, shoes, belongings and suitcases lay down beside the trains that already set off from the station. The march towards the bathrooms's started. Bathrooms equipped with pipes where water's never flown and showers from where no drop has ever come. (Work will set you free!)

Doors close.

Silence.

Fire lightened up.

Smoke.

Not even a day.

Good bye."

Here most of the buildings were burned down. There are only drawings and projects of what once was. The ones to stand are the logistic and residential (???) buildings.

Residences that froze in the winter and burned in the summer? Yes. Muddy all over? Yes. Group latrines without sanitation? Yes! Disgusting? Well. Working in such a sick place becomes a gift when FEDOR and dirtiness keep the monster Gestapo-Pain away.

Berkenau is Auschwitz with a 100 times more capacity. Just that.

And in the middle of it all,a group of Israeli people. Sitting in front of one of the main gas chambers. Many dressed with Israel's flag. Two girls play the guitar. Almost everyone sings. Candles are on. David's star.

(Tearing eyes)

Enough.

I am truly sorry.

Ivan

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