Monday, October 29, 2007

21 - Tushita and the introduction to Buddhism

                        "Minha religião é bondade"

                                                                                   Sua santidade, o XIV Dalai Lama.

                  Frances (4)

Vamos que vamos!

10 dias de uma intensidade tão serena que só mesmo um paradoxo para justificar o outro. Coisas, verão e veremos, da mente.

Se pudesse, escrevia páginas sobre esses 10 montanhosos dias de primavera no norte da India. Mas acho que - excessão aos raros - seria massante demais.

Fica, entretanto, o lembrete: se, mais, alguém quiser saber sobre o budismo, basta deixar um comentário ou me escrever de volta. Quando possível for, retorno com o maior prazer!     

                   Tushita - Alpes

Se de generalidade vamos, então segue o escopo do todo:

7 dias de silêncio - diariamente quebrado apenas por uma hora com discussões coletivas sobre as idéias vistas - alternando um schedule de aulas - proferidas por uma freira budista inglesa chamada Venerable Sarah - sobre conceitos da religião e acontecimentos cotidianos: das básicas fundações emocionais até conceitos de Karma, renascimento, reencarnação e plenitude da mente. "Aulas" alternadas com sessões de meditações apresentando diversas técnicas e razões por trás do método.

Após, 2 dias de silêncio total em um retiro apenas meditando sobre os diversos temas abordados. Para adiantar e expectativar: esses dois últimos dias são "sinistros"

Sobre as aulas? Um primeiro esclarecimento do que realmente o budismo é. Nada de filosofia de vida (APENAS). É sim uma religião com suas crenças, práticas, oferendas e rezas. Mas uma religião fundamentada totalmente na razão. E aí mora toda a beleza. Como? Eita ferro, ehehee!

A mente. A chave de tudo é a mente. Das inúmeras tradições budistas, o sumo é que o domínio a pleno conhecimento da natureza da mente é o caminho para a libertação. Aos adoradores do termo, nirvana. Como diabos explico isso? Monges passam vida(S) tentando...ai ai. Tenham boa vontade!

Imaginem a raiva. E um momento de explosão. Certo? Qual foi o motivo? Quem foi a pessoa? De quem foi a culpa? A nossa resposta comum é simples: da pessoa ou da situação. Olhar mais aguçado! Questione! Pergunte! Se foi a pessoa, o que ela fez? Ou o que deixou de fazer? Suponhamos que você goste de silêncio. A pessoa grita. Vem a raiva. Culpa? Da pessoa gritar? Ou de você gostar do silêncio? Ou de você desejar que todos respeitem o silêncio como você o faz? Ou você desejar que todos sigam o seu preceito? Exemplo extremo? Agarre a linha de raciocício e mente aberta! Suponhamos a situação: estava quente e eu tinha batido a cabeça. Então você queria tranquilidade. E como você queria tranquilidade, todos deveriam naquela hora respeitar e querer a tranquilidade. A mudança de foco entrega na bandeja conceitos como: ego, individualismo e interiorização.

Inveja, cobiça, ódio, tristeza, raiva. Puxe você um exemplo similar para cada um. E assim começam as idéias. Quais? Eita...

A latência de significado mora no conceito de sofrimento e felicidade plena, nas causas de ambos e no instrumento para a análise dos processos.

Para budistas, todo ser vivo que não atingiu a felicidade plena sofre. Sofre com sofrimento em si (dor, etc) e com a felicidade temporal. Como? Se a felicidade é temporal, ela se vai, e nesse momento o sofrimento chega. Quanto às causas? Todas interiores. Projeções de vontades, conceitos em outras pessoas ou em nós mesmos. Projeções da mente. "Apegos" da mente projetados exteriormente. Complexo? Hum...

Felicidade plena? É justamente atingida analisando a mente através de profundos métodos de meditação colocando em confronto o que nós projetamos com a natureza real das sensações. E derrubar, etapa por etapa, todos os vícios até atingir uma mente completamente limpa e ciente da natureza "vazia" das coisas. Forma é vazio. Vazio é forma. Ter, digamos assim, ciência de que as sensações irreais são projeções viciosas da mente e deixar de ser afetado por elas.

Imaginem o cinema. A tela está ali, mas ela é uma mera projeção de outra coisa. Imaginem que a vida é a tela. A mente liberada não para de olhar a tela, mas descobre o feixe de luz que vem do projetor e percebe o significado de cada projeção e como ela afeta o filme. Tudo é um encenar. Em outras linhas, passar a ver a vida como nós vemos um filme. Mais complexo? Pois é...

E por aí vai. Passando por karma (o conceito de que toda ação gera uma reação com a mesma carga no futuro ou nos futuros), reencarnação, partes da mente, budda e tanta coisa!

Extasiado, boa palavra. Positivo, pensando na realidade do retiro. Karma, causa e consequência, lógica e razão. Conseguir combinar e processar tais conceitos com a alegria da criança que descobre não precisar de rodinhas para o equilíbrio da bicicleta. Não é exterior, e sim interior. Uma motivação verdadeira, ainda que frágil, para crer em cima da construção ou construir em cima da crença é um estalo de encaixe. Sejam os 3 postulados da geometria euclidiana ou a reencarnação e continuidade das marcas karmáticas negativas e positivas durante as várias vidas, as respostas para o aceitar moram dentro de você.

Tentado resumir em um caminho(na tradição tibetana):

Vocé é um relez mortal. E aí percebe algo errado. A natureza das coisas não pode ser como é. Então, depois de muita análise crítica, você resolve renunciar a realidade como ela é e adotar uma metodologia para redescobrir o sentido das coisas. A meditação e suas diversas formas. Esse é o primeiro passo. Após, derrubando barreira por barreira, apego por apego, você vai até chegar a libertação, ou nirvana onde há uma completa ciência da natureza vazia e impermanente (constantemente mutante) das coisas. Por fim, desenvolvendo o desejo de proporcionar a cada ser vivo a liberação atingida individualmente, chega o estágio final: iluminado. Onde a sensação de oneself (eu) deixa de existir e os outros se tornam a sua única prioridade. Nesse estágio, você se torna um budda que significa, literalmente, acordado.

Parece simples? Isso é o objetivo de vidas e vidas de monges.

Durante os 7 dias passamos por muito mais. A história de Budda, de como ele foi precursor e tal caminho. Dos seus ensinamentos e discípulos. De um detalhamento significante sobre o que fazer em cada parte do caminho. Da morte e reencarnação,  dos 6 diferentes reinos de vivos (dos quais o humano é um e o animal é outro), da ausência de um começo pré-definido ou de um Deus. De que todas as respostas moram no interior da mente. Da importância de desenvolver compaixão por cada ser vivo...

Chega! Ehehe! Se quiserem mais detalhes, escrevam!

Sobre meditar? Existem basicamente duas técnicas básicas: mindfullness (plenitude da mente) meditation e meditação analítica. A primeira é o instrumento de controle da mente. Resumo da ópera: conseguir atingir concentração único-apontada (single pointed) plena. Focar em uma única coisa ou pensamento. A segunda consiste em analisar situações ou cenários e focar individualmente à exaustão em cada aspecto da análise até retirar a conclusão desejada. Uma, portanto, complementa a outra.

Vou descrever um método para cada uma que usamos:

1) Foco na respiração: já que ela sempre está lá, por que não usá-la?  Exatamente isso. Acompanhar o inalar e exalar indefinidamente. 30 minutos, 40 minutos. No meu caso, concentrar na sensação nas narinas interiores do ar passando na entrada e na saída. Meu recorde pleno? Duas respirações sem nenhum pensamento chegar. Foda né? Chegam MILHÕES de pensamentos. O objetivo não é evitá-los, e sim tornar-se ciente deles, de sua temporalidade, deixar-los ir e perceber sua falta de existência própria. Sempre focando na respiração.

2) Meditação sobre a raiva: visualizar uma situação de raiva com, por exemplo, uma pessoa. E a partir daí se fazer uma série de perguntas mentais sobre a natureza do sentimento e de sua origem e focalizar na análise de uma por uma. Até concluir que partiu, por exemplo, de você. De algo que você queria feito ou não queria feito. E por aí vai.

É impossível descrever a reação em cadeia de surpresas, sustos, pegadinhas, vitórias e simplicidade que, em mim, surgiu nesses 30 primeiros 30 minutos a meditar. Focar no respirar. Certo. Volta! (Estava pensando em focar em respirar e não focando em respirar.)...isso...dentro...fora...dentro...volta!! (Estava pensando no ar dentro e fora.) Simplesmente acompanha e sente, isso, sentir...volta! (Estava pensando em sentir.) (...) e assim a batalha com a mente continua, com alguns tímidos segundos de vitória mergulhados em imensos momentos com todas as distrações possíveis. Nunca me senti tão alheio e impotente. Ora essa! Era só acompanhar a respiração! Volta! Estava pensando em acompanhar e não acompanhando...

Existem pessoas que fazem retiro de UMA VIDA dentro de uma caverna nas montanhas buscando alcançar a real realização de tais coisas acima. Por aí cada um pode tirar.

Em tentativa de enriquecer mais as idéias, alguns pensamentos que surgiram no decorrer...

Manhã em que as aulas foram sobre a visão budista de todo o processo da morte

Discussão incomum. A tal morte. Dia nublado, mente inquieta. Não haveria de ser fácil analisar, dissecar e meditar sobre a mãe negra. Como pode uma religião possuir uma receita de bolo para todo o processo de morrer? Falta ar aqui, seca a boca acolá, para de respirar aqui, visualiza fumaça acolá, para de escutar e enxergar aqui, perde a consciência acolá. Morreu? Já. Quando? Quando nível mais sútil da mente se separa do corpo. Pode levar segundos, minutos, DIAS OU SEMANAS. Os mestres budistas conseguem ficar SEMANAS meditando nessa estado latente da mente. O corpo não apodrece, a presença de espírito continua. E a receita de bolo vai até o próximo renascimento. Tudo dito. Tudo detalhado. Budda.

Dia sobre o desenvolvimento de compaixão e do abrir mão de si mesmo em pró de outros seres vivos para atingir o estado de plenitude.

Motivações altruístas, compaixão, amor ao próximo. São inúmeras as características de bem querer e simplicidade sempre enfatizadas na religião. Realmente faz pensar de uma maneira embaraçosamente simples. Mais ou menos assim: ouvir um padre fervoroso e replicar "sem dogmas, verdades pré-estabelecidas. Fé e mais fé. Crer cego!" Não discuto se a reação é certa ou errada. Explique agora como rejeitar um conceito religioso que, em seu papa, afirma: "minha religião é bondade"

                          Meditação noturna sobre purificação de ações.

Om Mani Padme Hum...om mani padme hum...e meditar sobre purificar. Visualizar Budda em lotus sentado sobre um trono. Seu corpo é feito de luz. A luz da realização, do acordar. Recitando o mantra e visualizando toda aquela luz purificando seu corpo e o de todos os seres desse mundo de karmas e pensamentos ruins. O som do mantra é como cafuné antes de dormir. O efeito da meditação é de uma paz impossível de ser descrita.

           Meditação sobre assimilar o sofrimento alheio e gerar compaixão

Traga sua mente para o gompa. Sinta a presença do corpo sentando sobre o colchão. Relaxando a mente e o corpo (...) visualize uma pessoa querida que passa ou passou por um processo de muito sofrimento. Analise esse sofrimento. Agora imagine que você possui uma esfera maciça de luz dentro do coração. Sendo involta por uma pedra negra com todas as sensações ruins. Agora imagine que todo o sofrimento da pessoa está em uma fumaça negra ao seu redor. Você vai inspirar aquilo e, junto com a sua própria rocha, tudo vai se dissolver em luz...e vai continuar até que, na sua mente, toda a escuridão tenha se dissolvido...(...) tudo meio intelectual, mas em raros momentos eu pude sentir a sensação de sofrimento alheio e um certo alívio com o seu ir. Vai entender...

De fato, já chega.

Por fim, esquecendo crenças ou a ausência delas, o retiro foi  oportunidade única de descanso, reflexão, paz e tranquilidade. Um ambiente de harmonia imensa cujo tchau foi e é difícil de assimilar. Seja por meditações, comida vegetariana, olhares e sinais, sons, novidade ou o ar montanhês, para cada ser vivo: a possibilidade de se sentir tão bem como eu me senti nesses 10 dias.

Isso, sem a menor sombra de dúvida.

Ivan.

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Frances

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Hello everyone!

What can I say about those amazing 10 days inside a mountain-aired, calm, tender and sweet place? It is very hard to try and describe any bit of it. Of course I'll try nonetheless!

About Buddhism itself, well. That's a long way of going, checking and understanding this whole rush of information to the head. But it's waaaaaaay worth it to be done.

First of all, buddhism is not a philosophy or way of life, but a religion with all that comes with it. Some rituals, prayers, vows and on. But the great difference lies on the proposals and ways of beliefs of the Buddhists.

Instead of looking for the outside for answers and understandings, they look inside. No Saints, no Gods, no such a thing as unnatural. All within us and our mind. Liberation, pure and fully understanding and on. All inside our own selves.

How? Well. According to Buddhism, our mind has a true and pure nature that is carried around through all our lives and existences (yes, there is belief in reincarnation) without any pre determined beginning. And the path to liberation from all this cycle is to realize this very pure nature of the mind that's been polluted throughout many lives with wrong ideas and concepts of reality and feelings.

Trying to explain this in english is pretty hard, actually, but the main idea is that we see reality as permanent and defined through our senses and ideas of what exists and how exists. Still hard hã?

Think about a tree. Define it. What is a tree? Nope, you cannot point to one. Define it! Is it the root? The leaves? The fruits? The whole? What is a whole? A whole is a tree? Nope! If you keep thinking that way, buddhist say you may realize (with MUCH more methods and different analogies) the true nature of impermanence and interdependence of things. Interdependence meaning that the tree relies on many things. For example a leave. But the leave relies on food to develop, on the seed that gave birth to the tree. And the seed relates to whomever's carried it and so on. If you keep tracking things down, you realize the interdependence of them. That's KIND of the thought.

Actually, those realizations lead to the fact that the very nature of reality is emptiness. That's the belief which I will no try to explain. Those achievements are the focus of work of lifetime meditators that spend their whole existence in caves looking inside for answers.

Within that path of search you can reach nirvana, which is true liberation. But that is not enough, nor is the final step of the search. After that, with a strong development of compassion towards all other sentient beings and the desire to provide that achievement to them you can become a Buddha ,awakened, and achieve enlightenment, the final stage of the path.  

And inside that belief, you have a huge world of scriptures and teaching from the first Buddha himself about the true nature of things. Death, existence, rebirth, karma, realms of beings and a lot of wonderful concepts! If you want to, leave a comment or research a bit. I will not do so for it will take a long time, ehehehe.

The routine of the course (in a temple called Tushita) was basically teaching about that philosophy and meditations on the topics covered. 10 days of it. 7 with silence besides an one hour break for discussion groups and a 2day meditation retreat with total silence.

Our teacher was a British nun called Venerable Sarah. She was awesome!

About the meditation itself, there were two main methods. Mindfulness meditation and analytical meditation. The first one to develop full concentration skills reason why it is also called single-pointed meditation. We tried the breathing as the target. Just focusing on the breath and watching it. Letting the other thoughts come and go. Do not fight them, just be aware of them and let them go. It's amazing what happens to each person, ehehe. It's almost a struggle against your own mind to calm it down and tame it. It's VERY hard. This is like a step towards the second one which actually includes visualizations and things like that. You build situations in your mind, analyze it point by point by single-pointing it and then take the conclusions you need. The topics are as many as you can think. Death, pain, anger, suffering...all of this to tame your mind to begin to understand the true nature of things.

What it's amazing about Tibetan Buddhism is their strong will of compassion towards everyone. Dalai Lama himself calls Mao Tse Tung as his great teacher for the invasion of Tibet gave him the opportunity to develop more and more those feelings. By that you can see.

For me, this sentence summons it up and breaks one's prejudice. Whatever it may be.

                                 "My religion is kindness"

                                                                                   His holiness the XIV Dalai Lama.

I had a great time there. Moments of peace that I don't recall having had in my life. And when you look inside for the first time, It can also be extremely fortunate, even for the very sake of knowing you!

Cheers and sorry for the short text!! English! Ehehe. Anything, leave a comment!!

Regards.

Ivan

4 Comments:

At 8:00 PM, Juliana Pestana said...

Oi Ivan.
Descobri o blog de vcs e tenho tentado ler o máximo de coisas que consigo, mas tô bem no início ainda. rs
Olha só... eu tô indo fazer o mesmo programa que vcs começaram a viagem agora em dez e tive uma idéia de dar uma viajada pra fora do EUA dps. Nada tão grande como vcs foram... rs
Anyway, queria saber como vcs fizeram com o lance do visto e afins e se vcs puderam trabalhar em outros países?
Pode me responder por aqui mesmo que eu volto pra ler.

Brigadão.
Bjos.

 
At 10:57 AM, Clari said...

Gente, voces combinaram de postar milhaaaaaares de coisas sobre a Índia e o curso de budismo ?!?!?!
hehehehehe

Enfim, a jornalista tentando acompanhar as coisas que voces escrevem!

Beijos e boa Thailândia!

 
At 12:20 AM, Ivan Ribeiro said...

Oi Ju!

Seguinte...a melhor maneira de a gente tentar ajudar eh se vc escrever com as duvidas especificas. DAe a gente diz os perrengues pelos quais a gente passou ehehehe.

Meu email eh ivan.aiesec@gmail.com

Pode escrever o quanto vc puder que eu respondo oks??

Ja adianto que a gente - por opcao - nao trabalhou em outros paises (entao nao tem mta info sobre isso) e que vistos o site mais usado foi www.visaproject.com eh irado. Na duvida, ele da o link para os sites oficiais dos paises...entao eh relativamente tranquilo.

Oks??

Beijao!

Clari!
Muita experiencia junta!! Temq escrever pra KCT mesmo eheheh!!

 
At 2:51 PM, João Paulo said...

Seu Blog está realmente muito bom! E suas viagens parecem ainda melhores nessa sexta semana de ITA... De qualquer forma, Boa Sorte!

Abraços

 

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